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| Arte: Mariana Fiore |
Eu o amei assim que soube
que ele não era perfeito. Mas uma coisa que os outros casais não tinham em
comum, nós tínhamos: uma repulsa iminente às bebidas do Starbucks. Nada une
mais duas pessoas do que um desafeto em comum.
Aos poucos, eu fui
descobrindo dentro dele uma beleza jamais vista. Eu descobri, por exemplo, que
o homem que ia zelar pela minha vida usava uma bermuda rasgada, velha e toda
desbotada. No começo assusta um pouco, né? Tipo, quem vai cuidar dos outros se
não pode cuidar nem das suas próprias calças? Mas foi justamente olhando pra
aquelas calças que eu entendi que a beleza vem de dentro da gente e não da
roupa ou da forma com a gente se veste e que o que a gente sente tem mais valor
do que qualquer aparência.
Eu descobri com ele que
nossos olhos podem mudar de cor dependendo do nosso estado de espírito. Por
exemplo, quando ele acordava longe de mim os olhos dele eram castanhos, normais,
porque eu não podia vê-los, mas quando acordávamos no campo, um ao lado do
outro, depois de termos dividido a mesma cama, os olhos dele eram tão verdes que
quase ofuscavam o brilho do sol.
Com ele eu aprendi a ver os
dois lados da moeda e, mais que vê-los, aceitá-los. Aprendi também que pra cada
tristeza, existe também uma alegria.
Com ele eu aprendi que a
esperança é a última que morre, ou melhor, é a única que não morre e que mesmo
nas dificuldades, somos para ela a respiração por aparelhos e nós não podemos
falhar.
Com ele eu aprendi que o
desejo de superar a dor causada precisar ser maior que a dor sentida e que
enquanto existe um amanhã pra recomeçar, é a gente quem faz a nossa própria
aurora.
Com ele eu aprendi que sem
ele eu não sou nada.

