sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Ilustração: Mariana Fiore (https://www.facebook.com/ArtworkFiore)
Tantos outros sorrisos já chegaram e já foram embora e o dele parece ter sido cultivado em uma redoma intocável. Ele continua aqui no mais profundo de mim, se confundindo com o meu próprio eu e me confundindo tanto a ponto de odiar essa lembrança.

Eu escolhi que aquele fosse o último abraço, mas talvez não tenha o poder de decidir que aquele tenha sido o último sorriso.

Eu nem sei quem ele é agora, o que ele faz da vida ou se ainda gosta de comer pão com ovo gourmet. Eu só sei que os seus olhos, às vezes verdes, se fecham quase que completamente quando ele sorri e eu ainda posso contar todos os dentes da sua boca amarelados pelo efeito do café.

Quando o vi no meu portão, mais magro do que o de costume, a minha vontade foi de embalá-lo no colo e dizer “entra, tem carne de panela, batata e purê. Acabei de fazer”, mas meu pensamento foi interceptado por uma ligação inesperada por mim e desagradável pra ele. Claro que a minha vontade era de corresponder ao seu beijo, de abraçá-lo também e dizer “sim, eu ainda sinto a sua falta”, mas fui conduzida pela urgência da paz e, pela primeira vez na vida, ouvi a voz da razão. Não troquei o antídoto que tem me curado do vazio que ele deixou pelo efeito anestésico da sua presença.

Entre amá-lo e odiá-lo, eu prefiro acreditar que a nossa história já teve seu tempo e que agora tudo o que tem que ficar são as lembranças: as boas e as ruins também, porque fizeram parte dessa escola chamada “relacionamento”. 

Eu não vou mentir ser a dama de ferro, nem fingir que eu sou o homem de lata, que não tenho coração e que o que eu sentia por ele acabou do dia pra noite, mas é verdade que eu encontrei outro sorriso capaz de curar o desconforto que o sorriso dele ainda me causa, e esse novo sorriso também me deixa contar os dentes que ele tem na boca e confesso que os olhos dele se fecham completamente quando ele sorri. Ele não é quase, ele tem sido todo e tudo o que eu precisava pra acreditar que eu poderia me sentir feliz e que não me falta mais o pedacinho mais bonito de mim.

Em uma de nossas últimas conversas, ele me disse que era preciso caminhar, então eu procurei correr.  Tenho me cobrado muito com relação a isso, sempre penso que estou correndo demais, mas, por outro lado, a minha felicidade me diz que ela não pode mais esperar e que de nada adianta se preocupar com aquilo que poderia ter sido e não foi. Toda hora meu peito suplica por um pouco de paz e a minha alma pede arrego. Toda hora o meu peito pede urgência e me diz que o ontem foi lição e que o faz as coisas darem certo lá na frente é o que a gente faz agora. 


O amor está bravo comigo. Avisou que está chegando com os dois pés na porta e eu já posso sentir a sua fúria.  

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