Como num arroubo, encheu-se
de vazios oportunos e tristezas remotas. Meras lembranças de julhos passados.
Intrépida, desceu os degraus à sua frente sem se importar com os pingos grossos
e gelados, era necessário agir antes que os pensamentos tomassem conta da
esperança que lhe restava. Entendeu que apesar da tristeza, era necessário
sentir-se viva.
No caminho de casa, nada
surreal, impactante ou comovente, nada além de um caminho: a rua, a calçada, os
ônibus, carros e algumas pessoas que por ali passavam correndo para fugir da
chuva. Aliás, nada parecia surpreendê-la. Andou por vinte minutos, a fim de
chegar no acalento da sua casa, acompanhada de um banho quente, chá e cama, sem
revolver os pensamentos que há pouco lhe tinham tomado.
Entrou pelas portas dos
fundos, não queria incomodar. O cachorro não latia e seus pais já
encontravam-se no descanso de seus aposentos. Seu tênis sujo denunciava o
desmazelo com que resolveu tratar a vida.
Enquanto a água do chá
fervia, enchia-se de espuma no banho e entoava suavemente um canto de paz.
Lembrou-se de que depois de ter sido esquecida quando criança, seu pai não
tivera coragem de repetir a dose. E a partir dali lembrava-se dela em cada
momento do dia, sufocava a garota de amor e de afeto.
Durante o banho, lembrou-se
também que era necessário lavar a alma para entender que para cada uma de suas
tristezas, havia também uma alegria.
Muito bom, amei o texto. Parabéns!
ResponderExcluirAmei!
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