sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Lições pra toda vida

Sentou-se mais uma vez na calçada, enquanto aguardava a chuva passar. Usava uma calça jeans azul e uma blusa de touca. Não se sentira tão sozinha desde a época da escolinha, quando seu pai esqueceu-se de buscá-la por conta de uma partida de futebol.

Como num arroubo, encheu-se de vazios oportunos e tristezas remotas. Meras lembranças de julhos passados. Intrépida, desceu os degraus à sua frente sem se importar com os pingos grossos e gelados, era necessário agir antes que os pensamentos tomassem conta da esperança que lhe restava. Entendeu que apesar da tristeza, era necessário sentir-se viva.

No caminho de casa, nada surreal, impactante ou comovente, nada além de um caminho: a rua, a calçada, os ônibus, carros e algumas pessoas que por ali passavam correndo para fugir da chuva. Aliás, nada parecia surpreendê-la. Andou por vinte minutos, a fim de chegar no acalento da sua casa, acompanhada de um banho quente, chá e cama, sem revolver os pensamentos que há pouco lhe tinham tomado.

Entrou pelas portas dos fundos, não queria incomodar. O cachorro não latia e seus pais já encontravam-se no descanso de seus aposentos. Seu tênis sujo denunciava o desmazelo com que resolveu tratar a vida.

Enquanto a água do chá fervia, enchia-se de espuma no banho e entoava suavemente um canto de paz. Lembrou-se de que depois de ter sido esquecida quando criança, seu pai não tivera coragem de repetir a dose. E a partir dali lembrava-se dela em cada momento do dia, sufocava a garota de amor e de afeto.


Durante o banho, lembrou-se também que era necessário lavar a alma para entender que para cada uma de suas tristezas, havia também uma alegria. 

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