terça-feira, 29 de outubro de 2013

Você que nem eu sei quem sou

Ilustração Mariana Fiore (https://www.facebook.com/ArtworkFiore)
E você que nunca esteve aqui, nunca esteve aí pra mim. É, você que tem cheiro de menta, pipoca e chuva. Você que acorda cedo, dorme tarde e não atende às minhas solicitações. Você que nunca desejou bom dia e às vezes nem respondeu ao porteiro do prédio. Você que nunca caiu no meu encanto e foi o desencanto da minha vida. Você que nunca me viu, nunca me leu, nunca sequer me ouviu gritar. Você que, sem saber, levou o pedacinho mais colorido de mim e me deixou no breu, que me lembra os seus cabelos negros, lisos e com um corte horroroso.

Você que sorri e some, você que some e  volta, você que some mas não some e me irrita de tal forma que eu não consigo controlar e esconder a minha insatisfação. Você que não tem profundidade alguma, que é vazio do sentimento mais bonito que o ser humano tem o privilégio de desfrutar. Você que quer, mas não aceita. Você que sabe, mas não fala. Você que cala, consente e mente pra você mesmo. Você que não sente, mas enlouquece com a dúvida. Você que não encontra saída, porque perdeu a entrada, o retorno, o contorno dos lábios e as formas do corpo. Você que é copo cheio e vazio. É o oposto, o aposto, a regra mais difícil de classificar em gênero gramatical. O verbo conjugado por mim, por ela, por ele, por eles. A carne mais fraca, mais gorda, mais saborosa. 


Você que é mar, é rio, é água salgada e doce. Você que é onda de praia grande. É areia, é folha, é mato. É inseto asqueroso. É bicho medonho que menininha foge. Você que é pai, mãe e sobrinho. Você que tem gosto de desgosto, fel, lágrima, dúvida, incerteza e todos os medos experimentados por mim. Você que nem eu sei quem sou.

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