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| Ilustração Mariana Fiore (https://www.facebook.com/ArtworkFiore) |
E você que nunca esteve
aqui, nunca esteve aí pra mim. É, você que tem cheiro de menta, pipoca e chuva.
Você que acorda cedo, dorme tarde e não atende às minhas solicitações. Você que
nunca desejou bom dia e às vezes nem respondeu ao porteiro do prédio. Você que
nunca caiu no meu encanto e foi o desencanto da minha vida. Você que nunca me
viu, nunca me leu, nunca sequer me ouviu gritar. Você que, sem saber, levou o
pedacinho mais colorido de mim e me deixou no breu, que me lembra os seus cabelos
negros, lisos e com um corte horroroso.
Você que sorri e some, você
que some e volta, você que some mas não
some e me irrita de tal forma que eu não consigo controlar e esconder a minha
insatisfação. Você que não tem profundidade alguma, que é vazio do sentimento
mais bonito que o ser humano tem o privilégio de desfrutar. Você que quer, mas não
aceita. Você que sabe, mas não fala. Você que cala, consente e mente pra você
mesmo. Você que não sente, mas enlouquece com a dúvida. Você que não encontra
saída, porque perdeu a entrada, o retorno, o contorno dos lábios e as formas do
corpo. Você que é copo cheio e vazio. É o oposto, o aposto, a regra mais difícil
de classificar em gênero gramatical. O verbo conjugado por mim, por ela, por
ele, por eles. A carne mais fraca, mais gorda, mais saborosa.
Você que é mar, é rio, é água
salgada e doce. Você que é onda de praia grande. É areia, é folha, é mato. É
inseto asqueroso. É bicho medonho que menininha foge. Você que é pai, mãe e
sobrinho. Você que tem gosto de desgosto, fel, lágrima, dúvida, incerteza e
todos os medos experimentados por mim. Você que nem eu sei quem sou.

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